sexta-feira, 20 de março de 2009

carta ao mar.

quem diria. quem diria que, de todos os seres desse mundo, eu iria me afeiçoar justamente á você.

pulei as sete ondas.
gritei "salve, salve, iemanjá".

quem diria, Mar. quem saberia dizer o que iríamos nos tornar. quem nos vê, não imagina o quanto somos companheiros. quase como se fosse um segredinho, só nosso.

eu não posso prever qual vai ser o tamanho da minha saudade daqui pra frente.
pra dizer a verdade, mal nos separamos e eu já estou sentindo sua falta.
que ironia. a única coisa boa em chorar, é que lágrimas tem gosto de mar. até rimou. mas você me consola, daqui da janela do avião. deve ser porque me identifico com essa coisa de liberdade e amplitude que você tem. tão infinto. tão cheio de mistérios. ah Mar, chega a ser poético o modo como nós somos parecidos.
vou confessar tudo.
eu morria de medo de você, no início. tinha receio de ir fundo. você se mostrava tão traiçoeiro só pra me assustar, aposto. para nos conhecermos, eu tive que aprender a confiar em você. mas também tive que aprender a confiar em mim. nas minhas próprias pernas. olha, não foi fácil começar a bancar a corajosa e me atirar sem medo [ou não] nas suas ondas. você me obrigou a encontrar equilíbrio. me fez encontrar forças que eu nem imaginava que tivesse. me deu muito tapa na cara, me jogou muitas vezes no chão. mas eu tinha que me levantar. ou me levantava, ou me afogava. ainda bem que sempre optei por me levantar. no final das contas, acabo que não sei qual de nós é mais teimoso. você desafia, eu persisto. você provoa, eu revido. você é muito danado, viu, seu Mar?
aquela relação tensa não poderia durar muito, de qualquer forma. estava fadada ao limite. acabamos tendo que aprender a lidar um com o outro. e quando papai brincava comigo na água dizendo "vem, onda! eu não tenho medo de você!", eu repetia com gosto. você não me assustava mais. e depois, passou a me dar algumas das melhores alegrias de que me recordo. eu me lembro de cada cor de cada céu que ia se encontrar contigo, lá bem longe. consigo contar quantas algas se enroscaram no meu tornozelo. compartilhei com você os mais divertidos passeios na praia. você ouviu todas as músicas que eu cantei sozinha pra você. e ainda ouviu todas as confissões e fofocas com minhas amigas, seu enxerido. eu dançei tango com meu primeiro namorado aí mesmo, no meio das ondas. ó que loucura. e nem cabe falar das histórias que papai me contou caminhando do seu lado. acho que não seria a mesma pessoa que sou, se não fosse pela sua companhia, Dom Mar.
não demorou muito até eu perceber rastros de você em mim. como, por exemplo, a minha ânsia cada vez maior por liberdade. o seu balanço estava no meu jeito de falar. as músicas que eu tocava, eram cada vez mais praianas. quando me perguntavam o que eu ia fazer no fim de samana, eu dizia "domigo, eu vou a praia. vamo comigo?". juro que quando me olhava no espelho, eu te via nas ondas que saíam da minha cabeça. o seu reflexo estava gravado nos meus olhos distantes. se um terço de mim é feito de água, pode crer que é água do mar.
acho que eu devo ter deixado um pouco de mim em você, também. porque toda vez que eu te visitava, você parecia saber exatamente o que eu queria. eu pedia marolas, você trazia. eu pedia fortes tapas nas costas, você me dava. eu pedia paz de espírito e você me presenteva de bom grado. me carregava bem alto pra perto do céu. somos mesmo amigos, não é?
olha, Mar. muito obrigada por ter me ajudado a me tornar quem eu sou. obrigada por ouvir meus sentimentos e minhas canções. obrigada por ter se tornado assim, tão íntimo de mim apesar da minha resistência inicial. obrigada por me acolher, por me dar refúgio, por me deixar gritar. obrigada por cada gota de felicidade que as suas ondas me trouxeram. obrigada por ser tão meu amigo. dois amantes da liberdade só poderiam acabar assim.
estou levando a sua imensidão e maré junto comigo, na minha mala e na minha respiração. vou sentir falta do seu barulho e do seu cheiro. do seu toque também. mas pode ficar tranquilo, porque eu aprendi a me virar. e quando me sentir sozinha, vou me lembrar daquelas últimas palavras que trocamos, antes de eu ir:
- eu volto logo. - eu disse.
- vou estar aqui, te esperando. - você disse.

até breve.
com um amor tão grande e tão infinito quanto o seu;

gabriela ticle.

Um comentário:

Penélope Martins disse...

lindamente refletido no céu... o mar salpica sal nas estrelas mais distantes de suas margens de areia... esteja vc em Outro Preto, Cuiabá ou no meio do deserto. O azul é sempre mais preciso.