segunda-feira, 12 de abril de 2010

[fictéceo 3] flight 666.

*cena do documentário "Iron Maiden - Flight 666"*

- babacão, né?
- o que?
- rapaz aí, chorando pacas no show do maiden só porque pegou a baqueta.
- 'só' ?!
- ah vá, puta idiota. sem vida demais.
- não acho.
- ah pelamor, né...
- sério, não acho. capaz que eu chorava também.
- nem zoa. cê não tá falando sério.
- não, cara, pensaí. se fosse você, você não chorava?
- nem chorava.
- chorava sim, vá.
- chorava nada, pô. olha esse cara se acabando nas lágrimas agarrado num pedaço de pau, vê se isso é digno?
- é lindo.
- ah puta que pariu...
- não, poxa. olha pra ele. não sério, não ri, não debocha, olha pra ele. imagina a vida desse sujeito. deve ter aí seus vinte e tantos anos. começou a ouvir rock lá pelos oito ou dez anos. teve altos momentos com os amigos na escola falando sobre rock. sobre a banda que descobriu chamada iron maiden que tinha um som maneiro, uns desenhos sinistros, solos apavorantes. decorou as letras. começou a arranhar um violão ali pelos doze anos. aprendeu, pediu uma guitarra de aniversário pro pai. aprendeu a tocar, se sentia o astro tirando as músicas, fazendo um som com os amigos. pensou em montar uma bandinha. mas nem deu certo, mas ah, quem liga? impressionava as meninhas com as camisetas estampadas do iron. a primeira namoradinha curtia o mesmo som. a primeira transa foi com ela e um disco do iron tocando. nem tinha clima pra sexo, mas rolou mesmo assim. dali a pouco, ele já era grandinho pra ir pra umas baladinhas mais pesadas. bebia, fumava maconha, conhecia gente, ia pra vários shows... iron sempre como a música de fundo. tipo um trilha sonora, imaginou? daí ele adorava falar que era a banda favorita dele. conheçeu outros fans, discutia o som, descobria outras bandas com eles. um fã virou o melhor amigo dele. ele e mais uma turma saíam correndo com o carro explodindo de tão alto em 'run to the hills'. tinha uma turma louca de amigos que gostavam do mesmo tipo de rock na faculdade. pegava muita mulher que gostava daquele charme metaleiro. a melhor época da vida dele foi acompanhada pelo iron maiden. e mesmo nas horas de mais raiva e de mais tristeza, ele recorria ao iron. porque ali, sabe-se lá porque e por mais doentio que possa parecer, ali ele encontrava conforto. e ele tinha a humilde esperança de um dia poder ir num show deles. mas sabia que era difícil porque ele morava num buraco da américa do sul. de repente, os caras vêm pra cá, ele vai no show. pagou o olho da cara pelo ingresso. acampou na fila. maior confusão pra poder entrar. e vê um show do caralho. tem o melhor momento da vida dele e, de quebra, sai com a baqueta. aposto que ele enfrentou o maior empurra-empurra pra pegar o diacho da baqueta. enfrentou uma guerra. e esse 'pedaço de pau' é como se fosse todo um pedaço da vida dele ali, concretizado nas mãos dele. os momentos mais memoráveis da vida dele se convertem naquela baqueta. toda a glória de uma vida, toda a glória do mundo - ao menos, o mundo dele - numa baqueta. naquele segundo de choro que ficou pra história. eu também choraria. sem vergonha nenhuma.
- caralho, chorei.
- rá, babacão.

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