domingo, 20 de maio de 2012
da desordem.
talvez sejam esses livros. de guerra, de morte, de perda, de tanta histologia. talvez sejam essas músicas. é sempre ar demais para engolir e eu me transbordo e tento não me afogar em mim mesma. talvez sejam sejam esses ônibus. tentar, em paradoxo não encostar nos tantos outros apáticos anônimos que esperam também o conforto de um toque de gente. as árvores passando ora rápidas, ora lentas, ora paradas e depois lentas e depois rápidas de novo me alertam à existência de certo tipo de pulsação que, embora eu nem sempre queira, me impele sempre adiante. talvez sejam essas chuvas. dessa camada sólida de água que me empurra sorrateiramente de volta ao meu abrigo interno, sussurando promeças traidoras de proteção. esse inverno, essas águas, esse pedaço entre maio e setembro. eu bem conheço que confabulam e riem para me manter longe da imagem de um universo externo. uma camada acolhedoramente ameaçadora me garante, com voz de conforto irônica: te prendemos aqui sozinha novamente, meu amor. talvez sejam essas pessoas. quanto mais tento chegar, mais longe o caminho se mostra. se antes eu tinha espinhos, hoje eu tenho uma pele sensível demais para permitir que qualquer um encoste. por favor, não deem mais nós na minha cabeça. talvez sejam esses eus. é eu demais pra uma pessoa só. mas se eu tento projetar outra coisa, o mundo reflete meu rosto em tudo o que não quero olhar. parece pedante, mas a cada dia que passa, sinto estar ficando um pouco mais louca. como talvez, assim tenha me sido destinado. talvez sejam todas essas coisas, a girar num carrossel colorido em preto e branco, rápido demais para qualquer olho/cérebro dar conta. não creio que em qualquer lugar haja cabeça suficiente pra abarcar tudo isso. é por isso que ninguém nota. é por isso que as pessoas se distraem, bebem, dançam, vivem. nesse arcabouço acomodado de normalidade: para não ver as nuances que provam que, afinal de contas, o mundo é colapso demais para nós. talvez não seja nada disso. talvez o que quer que seja, me faz sentir, sempre e mais uma vez, que tudo, todas as coisas andam, como de costume, confortavelmente fora do lugar.
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Um comentário:
Acho o que é mais difícil é entendermos a nós mesmos, aí tudo fica nesse sentir, mas sei como isso dói - não querendo ser dramático. Gostei muito desse seu texto e o pior é que quando li me deu um frio na barriga, loucura. Lembrei de uma música de Legião, não sei se vem ao caso, mas... o nome é "Clarisse", você gosta? ( é uma música triste, "talvez sejam essas músicas" às vezes consigo entender um pouco de mim com elas) O relato do ônibus foi bem filisófico, e o pior é que nele que vem o momento de reflexão, gosto de fazer isso; embora seja tão solitário. Não querendo "ser pedante", tem uma frase que eu acho que caía bem "os que dançavam eram considerados insanos pelos que não podiam ouvir a música", mas acredito que esses que dançam são distintos aos que dançam em seu texto, entende?! Outra coisa... Das pessoas apáticas que encontramos no ônibus às vezes encontramos algumas empáticas também^^ e mais uma coisa, não sei porque, confortavelmente me fez lembrar de Comfortably Numb, Pink Floyd.
"E cala-se, me deixe só, entre meus nós que o destino me teceu
Deixe-me a sós com eu."
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