passo dias silentes
em que economizo dizeres
como quem salvaria o último
pão do homem mais famélico
que este chão já houve de abrigar
aquilo que ouço não me excita
tampouco me desperta
remota necessidade de resposta
andar o sol caminho afora
pouco me apetece a fala
e já se esgotam as frases
que reservei para a sobrevida
meu saco se enche
e minha vida se vai
a cada meia dúzia de léxicos organizados em sentido
que minha boca se força
a cuspir pra fora
(hei de morrer antes que me cale)
passa
passa
passa
a cada silêncio meu roubado
passa mais devagar
espero paciente a liberdade
que só a solidão provoca:
lá não existirá porquê
trocar palavras com o nada.
Um comentário:
"Era idêntica a uma frase elíptica, as palavras se escondiam, sim; o silêncio parecia o diálogo mais certo, mas quanta voz há enquanto o silêncio vigora. Recatada, no seu recanto, encantando todo olhar sensível, as palavras se encontravam apenas ao pegar o seu caderno, onde guardava todos seus silêncios escondidos." Imagino você dessa forma, sei lá - não sei se é loucura minha.
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