terça-feira, 4 de junho de 2013
anamnese.
"...sabe, doutor, difícil mesmo é aceitar que pouco sou. senhor bem vê. a gente vira tico de gente, vira nada. e, visse, tiro nem sei da onde essa tica que hei de virar, ora, se, a pois, sou mesmo é nada. que que se adianta, doutor? esse povo é frágil demais, um cisquinho já se quebra. é tanta coisa boba que derruba. aqui é perigoso demais. a gente acha que dá conta, mas é querer demais sair vivo dessa vida. seu doutor, senhor é estudado, pode dizer com parcimônia. coração não resiste. vê aí, ó, os véio morrendo tudo de coração destampado, né não? né não, doutô? é, sim. senhor me dê licença, mas eu que acho, senhor até me corrija, doutor, mas isso aí é morrer de não dar conta mais de sofrer. sofrer que eu digo é de lá de dentro. essas dor que não vêm de fora, que não vêm da lida do trabalho. nem dessas doenças aí que o sujeito vem pra cá, o doutor dá o remédio e passa. essas de ficar no hospital, não. dá nem febre. é essas dor que a gente aperta, fica meio sem rumo e sem lugar dendicasa, sabe? dá assim até um comichão nas costas, a gente parece que vai ter um troço. as ruindade vão vindo na cabeça, sabe nem de onde. fica tudo lá, nadando, azucrinando. garganta fecha dum tanto que só abre pra passar a pinga que o sujeito toma pra quietar a loucura. loucura, doutor, isso mesmo. aí o olho mareia. tem homem que vai esconder da esposa pra chorar. porque não, pode, né? virgem que me livre de um cristão me ver chorar, a gente cria essas mão grossa não é pra limpar lágrima, não, isso é digno? mas sei que é isso. essa agonia. a pessoa se sente pequena. é tanta coisa dendela que ela vai ficando miúda e miúda, acho que é pra ver se começa a caber menos coisa. será? ram. de certo que a ela fica tão pequena que vira nada. é como eu disse, doutor. a gente é nada. é nada pra lá e pra cá, veja. criança presta pra nada, faz nada. véio já vira mais nada ainda. tem uns que nem pesar a cama, pesa. pesar. sujeito homem, feito nós, só faz trabalhar, que mais que sobra? é nada. restou foi um pouco de coisa pra juventude, mas essa vida trata logo de podar isso fora também e tem pra onde correr, não. é nada. queria muito ser outra coisa, mas termina assim mesmo. e é tudo o que hei de ser. senhor vê melhor que eu, a gente é que nem formiga. mata uma, tem mais um monte, faz falta não. até alivia. ninguém vai sentir falta da nossa falta no mundo, não, seu doutor. mundo tá nem aí pra nós quando a gente tá aqui, vai lá saber quando a gente for? gente vive é assim, mesmo. na espera. um homem nasce e espera pra criar esse tanto de dor aí e depois espera pra morte levar embora. e depois que levar? uai, depois que levar, levou. foi, foi. doutor: gente é breve, passa ligeiro. o senhor, por favor, me desculpe essa falação que eu não sou disso. porque, depois de tudo, doutor, o que me resta é ficar quieto. e pisar macio pra ver não se a gente não se arrebenta mais ainda nesse meio do caminho. ai de nós, doutor. ai de nós que somos pouco. ai de nós."
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Nenhum comentário:
Postar um comentário