sexta-feira, 25 de outubro de 2013
azul escuro.
anda me vindo uma vontade louca de ter tinta, muita tinta, escorrendo por todos os cantos. relembro a maciez infante do pincel correndo, deslizando sobre a abundância, a fartura do material infinito. eu nunca gostei de economizar tinta. a tia ficava brava porque eu sempre ordenava que meu pincel absorvesse a maior quantidade de tinta possível do pote e nós nos lambuzávamos numa festa de escorrega sobre a tela. suspiro com uma saudade de ver a tinta virar arquitetura, endurecendo e formando relevos. tantos toques, tantas visões. arrepio, frio na barriga, ah minha vida. ando vendo cores distantes se sobrepondo sem senso nenhum. acho que no fundo - num fundo cinza e azul escuro - a cor é a prima linguagem do ser humano. há tantas vezes em que a palavra é demasiada nobre para descer a tamanha imundície. tudo o que é primitivo nunca foi belo. ora, claro, certas coisas e gentes não se misturam. e quando não há mais palavra que se digne a nos conceder compaixão, recorremos à cor para buscar a salvação. a tinta é bruta. rude. tosca. como nós. a mão se suja e faz muita meleca quando o pincel é um canal muito estreito pra se trans(b)(p)or(d)(t)ar. pinta-se com o corpo inteiro, nu, junto à nudez de imensas camadas de tinta. lava-se a alma. esfrega-a até que se rasgue. e quando não há mais nada a sobrar, lambe-se o creme tinturado, como quem sorve o mel dos amantes. intoxica-se tentando colorir-se até por dentro porque o mundo não é mais suficiente. morre-se daquilo que nos é mais vital. como portinari, com suas pinceladas largas e corajosas, feliz num breve suicídio a cada tanto de tinta respirada.
eu desenho aquilo que não sei dizer. pinto aquilo que não sei sentir. a cor é a luz que não consigo ver. e a tinta ainda é o chão que me ensina a andar.
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